Passeando pelos corredores da biblioteca municipal, vejo tantos livros nas estantes, alguns surrados, envelhecidos pelo tempo e outros empoeirados. Tive a impressão que há muito tempo não são abertos... quase cheiram a ‘naftalina’. Nas prateleiras alguns livros novos convidando os olhos para uma aventura.
Enquanto leio “Biblioteca Verde” de Carlos Drummond de Andrade, construo o cenário no meu imaginário...
“Mas leio, leio. Em filosofiastropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente.”
Fico pensando se talvez essa tenha sido uma experiência de sua infância e assim lembrei-me da minha...
Viajo agora, nos corredores da minha infância sem livros. Em minha casa o único livro que entrava eram as escrituras: A Bíblia. Este eu lia para entender coisas do ‘além’, e quem disse que entendia alguma coisa? Quanto mais eu lia mais perguntas eu fazia. Quem dera eu tivesse tido a experiência de alguém que lê-se uma história antes de dormir. As histórias que ouvia eram sempre na escola dominical, nos domingos de manhã... ainda lembro-me delas, de ficar espantada com algumas... aquela de um homem de nome Jonas que havia passado 3 dias e 3 noites na barriga do grande peixe. Como era isto possível? Ninguém nunca me disse que aquela história era uma metáfora, talvez porque eu não entenderia ou por acreditarem que era real.
No entanto, a experiência mais fascinante que tive com os livros, foi quando eu tinha uns 3 anos. Na escola maternal... o primeiro dia do conto, numa sala especial, repleta de almofadas, com uma luz suave. Havia todo um clima especial para a história que seria contada. E sabem quem contou a história? Eu pensei que seria a professora, mas foi o Lobo Mau e a Chapeuzinho Vermelho... foi tão significativo que não esqueci jamais. A história havia criado vida... não eram apenas letras no papel.
Mais tarde, infelizmente, não houve mais personagens significativos na minha vida... A não ser os personagens de Lobato no Sítio do Pica Pau Amarelo. Quando chegou o ensino médio então, ler era um tédio, verdadeira obrigação para fazer um resumo, responder um questionário. Comecei a gostar de ler depois de casada, influenciada pelo meu marido que é escritor e ama a literatura. Mas foi lendo Rubem Alves que me apaixonei pelos livros e comecei também a escrever alguns devaneios. As leituras que fiz afloraram meus sentidos para perceber e significar o mundo. Aos poucos descobri que eu poderia colocar no papel meus sentimentos, minhas percepções.
Ultimamente leio muito livros relacionados à educação, alguns monótonos leio por obrigação, mas outros é puro prazer que chego ler uma, duas, três vezes... Enfim, ler é levantar hipóteses, é descobrir outro mundo, é viajar, sonhar, alimentar o corpo que anseia por essa experiência. Ler é dialogar com o texto, e é isto que acho fantástico na linguagem escrita, ela tem o ‘poder’ de tirar-nos de nós, num abrir e fechar de páginas como o próprio Drummond escreveu.
Leio para perder-me... e para encontrar-me em mim mesma.
Escrevo para conhecer-me .
Luciana de Castro Regis

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