Nos séculos passados, as crianças eram consideradas adultos em miniatura, vestiam-se e trabalhavam como adultos. Não existia infância e as exigências impostas aos adultos eram as mesmas dos pequeninos. O discurso do pensador francês, Jean Jacques Rousseau de que “as crianças não são adultos em miniatura”, influenciou muito para as mudanças nos séculos que se seguiriam, ampliando as discussões na esfera educacional e familiar, e viabilizando leis que ao longo do tempo foram regulamentando seus direitos. Contudo, na contemporaneidade observamos uma subversão de valores impostos aos pequenos, que desde muito cedo convivem com um novo mundo permeado pelas mídias e o crescente consumismo. Mundo esse, inteiramente diferente do de nossos avós, não fosse pelo fato das crianças perderem novamente sua infância. Mas dessa vez o vilão não é a rigidez dos usos e costumes da época, e sim a falta de sensatez e lucidez de um sistema puramente capitalista.
Sistema em que o lema é adquirir para então descartar, onde a necessidade confunde-se com o desejo de posse. Se a vida se faz na experiência entre o nascimento e a morte, e nesse intervalo de tempo nos debatemos entre o ser e o ter, pois algo em nossa essência nos diz que temos potencial para ser plenos, mas o mundo a que viemos nos diz constantemente que só seremos plenos se possuirmos tal objeto, se satisfizermos a volúpia do desejo. A mídia se especializa em criar desejos, falsas necessidades. Não bastássemos nós adultos sermos alvo do capitalismo, nossas crianças já nascem rotuladas com o título de consumidoras em potencial. Ralph Waldo Emerson diz que o desafio na atualidade é “manter sua personalidade num mundo que diz constantemente que você deve ser outra coisa”.
Se em nossos discursos afirmamos que tudo o que queremos é ser, por que nossas crianças são estimuladas a ter? Ao presentearmos nossos filhos com uma Barbie, podemos estar despertando o “monstro” chamado consumismo. Segundo Rubem Alves, “a Barbie é uma bruxa”, em tese podemos concordar que essa boneca de plástico é o retrato da infelicidade, de um querer e um ter insaciáveis, Os veículos publicitários reforçam essa ideia lançando no mercado produtos destinados a esse alvo. Assim, vemos garotinhas, Barbies personificadas, vestindo-se como mulheres adultas, maquiando-se excessivamente, perdendo a inocência. Por sorte, países como a Suécia já adotaram a proibição e restrição de propagandas dirigidas ao público infantil, inclusive as embalagens devem ser neutras a fim de não incitar o consumo. Certamente um belo exemplo a ser abraçado.
O que nos leva ao ponto de que tudo o que precisamos é um pequeno movimento em cada um de nós para desmistificar práticas tão latentes dentro de nossos lares. Do contrário devemos temer pelo perfil de nossas crianças, que perpetuam o adulto miniaturizado em pleno século XXI, nutrido e cevado pelo sistema onde o ter sobrepuja o ser. Edgar Morin disse que “viver exige, de cada um, lucidez e compreensão ao mesmo tempo, e, mais amplamente, a mobilização de todas as aptidões humanas”. Somente educadores, mães e pais lúcidos darão conta de fazer os enfrentamentos necessários para resgatar a infância de nossas crianças.


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