sábado, 11 de junho de 2011

Uma nova forma de ler




Tempos modernos esses que nossos olhos parecem timidamente de soslaio contemplar. Estaríamos tão ultrapassados a ponto de não acreditar na concretude dos fatos? Tudo parece ter mudado drasticamente, tão inesperado, inconstante e aterrador. Não bastassem todas as revoluções nas esferas sociais causadas pelas novas tecnologias, somos convocados a participar, pois num mundo globalizado pela internet quem não se moderniza corre risco de ser ‘extinto’, excluído. Sejamos francos, o novo sempre nos causa estranhamento, nesse ponto somos extremamente conservadores e evitamos as mudanças, tememos a desestabilização, gostamos de saber onde pisam nossos pés.
 A internet interliga mundos e rompe as barreiras socioculturais, ao mesmo tempo em que ela fragmenta as identidades dos sujeitos ela também cria uma espécie de multicultura e democratiza a informação. E é nesse contexto que surgem os e-books como um dos divisores de águas separando a geração tecnologizada da geração passada. Os amantes literários veem o objeto livro ameaçado de extinção. A polêmica instaurada entre e-book e livro impresso alimenta os debates não apenas no meio literário, mas fora dele, nos leitores fervorosos. Como admitir que outro assuma o status do eterno e bom livro de cabeceira? Tamanha presunção obscurece nosso olhar para as possibilidades que se desenham, para as vantagens que os livros eletrônicos parecem oferecer. Deveríamos olhar para essa situação com o distanciamento que ela merece, e falo não no sentido de um olhar ‘frio’, mas ponderado, disposto a considerar suas possibilidades. O manuseio de um Kindle ou um Tablet tem a capacidade de empolgar os críticos mais convictos, assim Coutinho anuncia em sua crônica pelo fato de ser terrivelmente contra essa nova forma de ler em pixels, e depois acaba por render-se ao encantamento dessa plataforma, mas era convicto demais para admitir, passando a dissimular o frenesi dessa nova paixão, sentiu-se um traidor, teria Gutenberg se revirado no tumulo? Embora Coutinho esclareça que haverá livros que ele desejará possuir, podemos entender com isso que ele acredita que o livro impresso não será suprimido. Para Italo Calvino, uma crônica sempre será uma crônica, não importa onde esteja escrita, se em pixels, bits ou impressos em papel. Já, Saramago olha para esse novo mundo e preocupa-se não com a possibilidade do livro impresso vir a desaparecer, mas sua atenção volta-se para a possibilidade da curiosidade, que sempre moveu o homem, vir a extinguir-se. Saramago, embora reconheça essa nova esfera literária, acredita que sempre será preciso imprimir o que se escreveu.
Minha relação com os livros não é diferente. Já me senti assim como Coutinho. Sou tátil, gosto de acariciar o objeto livro, sentir a textura ‘listrada’, como nesse último livro que li “O menino do pijama listrado”, recostá-lo no peito num longo suspiro. Por outro lado, não vejo o e-book como ameaça, o vejo como uma nova possibilidade. Há um mistério que circunda esse momento histórico que vivemos, a contemplação de um universo novo, com outros aromas, gostos e cores múltiplas. Os e-books são antes de tudo extremamente visuais, atraentes nas formas e parecem interagir conosco de um jeito diferente. Vejo a leitura e a escrita com dinamicidade, as formas de ler e escrever se modificaram muito com o tempo, se antes de Gutenberg o livro era objeto exclusivo para poucos, e depois disso ele popularizou-se, hoje podemos dizer praticamente que só não lê quem realmente não quer, tamanha é a quantidade de meios disponíveis. Há mais ou menos um ano tive contato com meu primeiro e-book, e lembro-me de ficar fascinada.
Concordo com os autores, em especial com Calvino, para mim não importa a plataforma, desde que se escreva e se leia, na essência essas esferas são expressões da alma humana. Morada das palavras. Gosto muito de ler e ouvir histórias, embora não tive em minha vida muitos contadores de histórias, ao menos até ir para a escola. Lembro que uma vez ganhei de presente um disco de vinil com os contos clássicos, e passava horas e horas, arrebatada de prazer que os contos me despertavam, eu viajava sem sair do lugar. As histórias sempre alimentaram minha vida, recordo-me de sonhar com a casa feita de doces de Maria e João e mais tarde na minha adolescência realizar o sonho antigo quando ganhei num sorteio uma casa de uns 4 metros quadrados, coberta de bombons ouro branco e sonho de valsa. Recordo-me de estar em meio aos livros na livraria em que trabalhava, quando o autor daquele livro específico que eu segurava nas mãos entrou pela porta da livraria, e dois anos mais tarde ele viria a ser meu príncipe encantado. Contos de fada que tornar-se-iam realidade. Não sou profunda conhecedora de literatura, minha relação com a leitura é de prazer simplesmente, leio o que tenho vontade e às vezes o que preciso. Conto histórias e canto cantigas para meu filho desde antes dele nascer.
Ler é viajar, é tecer a vida com outros tons, seja nos ecrãs do computador ou em afeltrado de fibras. Cada um a sua maneira representa um tempo histórico. Mas que na essência são o mesmo: Palavras. Nada se perde, tudo se transforma, é a lei de Lavoisier. O maior desafio que a modernidade nos apresenta é superar o (pré) conceito arraigado pelos velhos métodos e aprender olhar o novo com olhos do momento histórico atual, só assim será possível manter acesa a curiosidade de decifrar pixels, bits, megabits e sabe-se lá o que ainda vão reinventar.

Por Luciana de Castro Regis

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