sábado, 11 de junho de 2011

Adultos em miniatura




Nos séculos passados, as crianças eram consideradas adultos em miniatura, vestiam-se e trabalhavam como adultos. Não existia infância e as exigências impostas aos adultos eram as mesmas dos pequeninos. O discurso do pensador francês, Jean Jacques Rousseau de que “as crianças não são adultos em miniatura”, influenciou muito para as mudanças nos séculos que se seguiriam, ampliando as discussões na esfera educacional e familiar, e viabilizando leis que ao longo do tempo foram regulamentando seus direitos. Contudo, na contemporaneidade observamos uma subversão de valores impostos aos pequenos, que desde muito cedo convivem com um novo mundo permeado pelas mídias e o crescente consumismo. Mundo esse, inteiramente diferente do de nossos avós, não fosse pelo fato das crianças perderem novamente sua infância. Mas dessa vez o vilão não é a rigidez dos usos e costumes da época, e sim a falta de sensatez e lucidez de um sistema puramente capitalista.
Sistema em que o lema é adquirir para então descartar, onde a necessidade confunde-se com o desejo de posse. Se a vida se faz na experiência entre o nascimento e a morte, e nesse intervalo de tempo nos debatemos entre o ser e o ter, pois algo em nossa essência nos diz que temos potencial para ser plenos, mas o mundo a que viemos nos diz constantemente que só seremos plenos se possuirmos tal objeto, se satisfizermos a volúpia do desejo. A mídia se especializa em criar desejos, falsas necessidades. Não bastássemos nós adultos sermos alvo do capitalismo, nossas crianças já nascem rotuladas com o título de consumidoras em potencial. Ralph Waldo Emerson diz que o desafio na atualidade é “manter sua personalidade num mundo que diz constantemente que você deve ser outra coisa”.
Se em nossos discursos afirmamos que tudo o que queremos é ser, por que nossas crianças são estimuladas a ter? Ao presentearmos nossos filhos com uma Barbie, podemos estar despertando o “monstro” chamado consumismo. Segundo Rubem Alves, “a Barbie é uma bruxa”, em tese podemos concordar que essa boneca de plástico é o retrato da infelicidade, de um querer e um ter insaciáveis, Os veículos publicitários reforçam essa ideia lançando no mercado produtos destinados a esse alvo. Assim, vemos garotinhas, Barbies personificadas, vestindo-se como mulheres adultas, maquiando-se excessivamente, perdendo a inocência. Por sorte, países como a Suécia já adotaram a proibição e restrição de propagandas dirigidas ao público infantil, inclusive as embalagens devem ser neutras a fim de não incitar o consumo. Certamente um belo exemplo a ser abraçado.
O que nos leva ao ponto de que tudo o que precisamos é um pequeno movimento em cada um de nós para desmistificar práticas tão latentes dentro de nossos lares. Do contrário devemos temer pelo perfil de nossas crianças, que perpetuam o adulto miniaturizado em pleno século XXI, nutrido e cevado pelo sistema onde o ter sobrepuja o ser. Edgar Morin disse que “viver exige, de cada um, lucidez e compreensão ao mesmo tempo, e, mais amplamente, a mobilização de todas as aptidões humanas”. Somente educadores, mães e pais lúcidos darão conta de fazer os enfrentamentos necessários para resgatar a infância de nossas crianças.
                                               Por Luciana de Castro Regis

Uma nova forma de ler




Tempos modernos esses que nossos olhos parecem timidamente de soslaio contemplar. Estaríamos tão ultrapassados a ponto de não acreditar na concretude dos fatos? Tudo parece ter mudado drasticamente, tão inesperado, inconstante e aterrador. Não bastassem todas as revoluções nas esferas sociais causadas pelas novas tecnologias, somos convocados a participar, pois num mundo globalizado pela internet quem não se moderniza corre risco de ser ‘extinto’, excluído. Sejamos francos, o novo sempre nos causa estranhamento, nesse ponto somos extremamente conservadores e evitamos as mudanças, tememos a desestabilização, gostamos de saber onde pisam nossos pés.
 A internet interliga mundos e rompe as barreiras socioculturais, ao mesmo tempo em que ela fragmenta as identidades dos sujeitos ela também cria uma espécie de multicultura e democratiza a informação. E é nesse contexto que surgem os e-books como um dos divisores de águas separando a geração tecnologizada da geração passada. Os amantes literários veem o objeto livro ameaçado de extinção. A polêmica instaurada entre e-book e livro impresso alimenta os debates não apenas no meio literário, mas fora dele, nos leitores fervorosos. Como admitir que outro assuma o status do eterno e bom livro de cabeceira? Tamanha presunção obscurece nosso olhar para as possibilidades que se desenham, para as vantagens que os livros eletrônicos parecem oferecer. Deveríamos olhar para essa situação com o distanciamento que ela merece, e falo não no sentido de um olhar ‘frio’, mas ponderado, disposto a considerar suas possibilidades. O manuseio de um Kindle ou um Tablet tem a capacidade de empolgar os críticos mais convictos, assim Coutinho anuncia em sua crônica pelo fato de ser terrivelmente contra essa nova forma de ler em pixels, e depois acaba por render-se ao encantamento dessa plataforma, mas era convicto demais para admitir, passando a dissimular o frenesi dessa nova paixão, sentiu-se um traidor, teria Gutenberg se revirado no tumulo? Embora Coutinho esclareça que haverá livros que ele desejará possuir, podemos entender com isso que ele acredita que o livro impresso não será suprimido. Para Italo Calvino, uma crônica sempre será uma crônica, não importa onde esteja escrita, se em pixels, bits ou impressos em papel. Já, Saramago olha para esse novo mundo e preocupa-se não com a possibilidade do livro impresso vir a desaparecer, mas sua atenção volta-se para a possibilidade da curiosidade, que sempre moveu o homem, vir a extinguir-se. Saramago, embora reconheça essa nova esfera literária, acredita que sempre será preciso imprimir o que se escreveu.
Minha relação com os livros não é diferente. Já me senti assim como Coutinho. Sou tátil, gosto de acariciar o objeto livro, sentir a textura ‘listrada’, como nesse último livro que li “O menino do pijama listrado”, recostá-lo no peito num longo suspiro. Por outro lado, não vejo o e-book como ameaça, o vejo como uma nova possibilidade. Há um mistério que circunda esse momento histórico que vivemos, a contemplação de um universo novo, com outros aromas, gostos e cores múltiplas. Os e-books são antes de tudo extremamente visuais, atraentes nas formas e parecem interagir conosco de um jeito diferente. Vejo a leitura e a escrita com dinamicidade, as formas de ler e escrever se modificaram muito com o tempo, se antes de Gutenberg o livro era objeto exclusivo para poucos, e depois disso ele popularizou-se, hoje podemos dizer praticamente que só não lê quem realmente não quer, tamanha é a quantidade de meios disponíveis. Há mais ou menos um ano tive contato com meu primeiro e-book, e lembro-me de ficar fascinada.
Concordo com os autores, em especial com Calvino, para mim não importa a plataforma, desde que se escreva e se leia, na essência essas esferas são expressões da alma humana. Morada das palavras. Gosto muito de ler e ouvir histórias, embora não tive em minha vida muitos contadores de histórias, ao menos até ir para a escola. Lembro que uma vez ganhei de presente um disco de vinil com os contos clássicos, e passava horas e horas, arrebatada de prazer que os contos me despertavam, eu viajava sem sair do lugar. As histórias sempre alimentaram minha vida, recordo-me de sonhar com a casa feita de doces de Maria e João e mais tarde na minha adolescência realizar o sonho antigo quando ganhei num sorteio uma casa de uns 4 metros quadrados, coberta de bombons ouro branco e sonho de valsa. Recordo-me de estar em meio aos livros na livraria em que trabalhava, quando o autor daquele livro específico que eu segurava nas mãos entrou pela porta da livraria, e dois anos mais tarde ele viria a ser meu príncipe encantado. Contos de fada que tornar-se-iam realidade. Não sou profunda conhecedora de literatura, minha relação com a leitura é de prazer simplesmente, leio o que tenho vontade e às vezes o que preciso. Conto histórias e canto cantigas para meu filho desde antes dele nascer.
Ler é viajar, é tecer a vida com outros tons, seja nos ecrãs do computador ou em afeltrado de fibras. Cada um a sua maneira representa um tempo histórico. Mas que na essência são o mesmo: Palavras. Nada se perde, tudo se transforma, é a lei de Lavoisier. O maior desafio que a modernidade nos apresenta é superar o (pré) conceito arraigado pelos velhos métodos e aprender olhar o novo com olhos do momento histórico atual, só assim será possível manter acesa a curiosidade de decifrar pixels, bits, megabits e sabe-se lá o que ainda vão reinventar.

Por Luciana de Castro Regis

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Consumir ou não consumir? Eis a questão!


Cotidianamente parafraseamos a tragédia shakespeariana: Consumir ou não consumir? Eis a questão! Tal dicotomia de pensamento devasta nossas mentes continuamente. Na verdade não sei se vivemos uma nova ordem mundial, ou se estamos na contramão do sistema.  Existimos em uma sociedade em que o ter ultrapassa o ser. Campanhas publicitárias se especializam em despertar o desejo, a cobiça, instituem a ideia de que todos os problemas serão resolvidos apenas se consumirmos. Somos instigados a comprar coisas que muitas vezes não necessitamos. Aparelhos cada vez mais modernos que compramos e que com a mesma frequência descartamos. Disputamos com o outro o melhor status e não nos preocupamos que enquanto nos deliciamos com as coisas, há gente pagando com a própria vida. Assim, deturpamos os princípios de moralidade que nossa sociedade deveria embandeirar.
 Por que necessitamos de tudo isso? Por que consumimos tanto? O que faz a máquina do consumo se mover? Talvez essas perguntas devessem ser respondidas pelos verdadeiros responsáveis por essa máquina e pelo sistema.  Mas quem são os culpados? Para uns o sistema é bom, nós que não sabemos usá-lo. Para outros o sistema não é tão bom assim, mas se alguém o fez assim deixa como está. E acomodados ficamos, e os dias passam e as catástrofes ambientais estampam os jornais. No entanto, enquanto a tragédia não bate a nossa porta, levamos nossa vidinha numa boa, como se não fosse problema nosso. Consumimos a vida, retroalimentamos nosso desejo absurdo e mesquinho de sempre possuir mais alguma coisa, como se a vida fosse infinita como o é nossa avareza. Enredamo-nos num ciclo vicioso que parece não ter fim e acabamos exaustos, sem tempo, endividados para manter viva a roda da fortuna. Em nossas filosofias ostentamos a demagogia de que somos seres em constante evolução. Mas às vezes me pergunto se tal ‘progresso’ (ou seria melhor usar retrocesso?) não está ligado à inversão de muitos valores que temos perdido com a chamada “modernidade”. Me sinto na contramão, tudo parece estar péssimo.  Será que sou pessimista? Ou quem sabe a ‘ovelha negra da família’? Por favor, pensem ao meu lado
Vejam bem, nosso mundo não é uma página em branco onde vamos escrevendo o rumo das coisas que vamos fazer, pelo contrário, tudo é friamente pensado, premeditado, predeterminado, e nós fazemos parte desse sistema. Assim, o que vivemos hoje pode ser reflexo do que planejamos ontem. Um exemplo básico são alguns de nossos governantes, que ganham um salário digníssimo de alguns mil reais por mês (para não dizer milhões), enquanto um professor do Nordeste brasileiro não chega a ganhar míseros R$ 600,00! Mas faz parte do sistema, afinal ser professor é um ato de amor, não é mesmo? Sem falar quando a mão de obra de trabalhadores nas empresas lhes paga um salário de fome, tudo para satisfazer o sistema, ou quando nosso ar é poluído pelos gases tóxicos expelidos nos quatro cantos do mundo, ou quando os peixes de nossos rios morrem porque uma empresa depositou lixo tóxico em nossas nascentes. Outro exemplo é quando uma floresta inteira é devastada para satisfazer o sistema. Ah! Mas espera um pouquinho: - Eles reflorestam tirando árvores centenárias para plantar mais ou menos um canteiro de eucaliptos. Acho que deve dar menos sujeira porque agora a moda é o clean!
O que devemos perceber é que muitas vezes as pessoas que geram o sistema não pensam naqueles que vivem no sistema, pelo contrário pensam nos lucros que podem ter independentemente das consequências. Isso gera inúmeros problemas sociais e ambientais.  Enquanto estamos alienados comprando coisas inúteis, que mais tarde serão lixo, e estes se tornarão o caos em que vivemos hoje, a natureza e as pessoas pagam com a vida por falta de planejamento, de conhecimento, de verdade! Basta de sermos ovelhinhas do sistema. Precisamos nos posicionar! Afinal vivemos em um planeta finito que agoniza os reflexos de nossa prática. E então, você ainda vai se debater entre a dicotomia? Consumirás vorazmente a vida?

Por Luciana de Castro Regis.